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sábado, 20 de abril de 2013


 
Ando um pouco acima do chão

Nesse lugar onde costumam ser atingidos

Os pássaros

Um pouco acima dos pássaros

No lugar onde costumam inclinar-se

Para o voo

Tenho medo do peso morto

Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre

Nessa encosta onde a palavra é como pão

Um pouco na palma da mão que divide

E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo

E verto o sangue para dentro das palavras

Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo

Passageiro num degrau invisível sobre a terra

Nesse lugar das árvores com fruto e das
 
árvores

No meio de incêndios

Estou um pouco no interior do que arde

Apagando-me devagar e tendo sede

Porque ando acima da força a saciar quem vive

E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe.

Faria, Daniel

in Poesia

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Antero de Quental

DIVINA COMÉDIA

Erguendo os braços para o Céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: - «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: - «Homens! porque é que nos criastes?!»



QUENTAL, Antero de. Sonetos. Lisboa: Sá da Costa, 1962, p.176.

via
http://antoniocicero.blogspot.com/

terça-feira, 6 de setembro de 2011

«Esta noite o vento ceifa os bosques e
uma raiva sacode a terra. se a voz
do mar chamasse pelas velas, os estreitos
aguardariam um naufrágio. E se dissesses
o meu nome eu morreria de amor.
...
Devo, por isso, afastar-me de ti ― não
por ter medo de morrer (que é de já não
o ter que tenho medo), mas porque a chuva
que devora as esquinas é a única canção
que se ouve esta noite sobre o teu silêncio.»

(Maria do Rosário Pedreira)

sábado, 4 de junho de 2011

Duração

Duração

O tempo era bom? Não era
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.

Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos,
estou me lendo e relendo.

Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.

Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto,
da raiz mesma do ser.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
via
http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200809120208

Duração

Duração O tempo era bom? Não era
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.

Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos,
estou me lendo e relendo.

Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.

Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto,
da raiz mesma do ser.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
via
http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200809120208

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas

segunda-feira, 28 de março de 2011

O mercado dos duendes

O mercado dos duendes De manhã e à noitinha As donzelas ouviam pregões de duendes: “Venham comprar os frutos do nosso pomar, Venham comprar, comprar: Marmelos e maçãs, Laranjas e limões, Cerejas bem cheiinhas que ninguém ‘inda bicou, Melões e framboesas, Bochechas de veludo a que nós chamamos pêssegos, Uvas-dos-montes livres desde o berço, Amoras tão vermelhas E amoras que são pretas ou silvestres, Alperces, maçãs bravas, Morangos, ananases; – Todos amadurados em conjunto Com tempo de verão, – Alvoreceres passam, Bonitas tardes vão; Venham comprar, comprar: Uvas acabadinhas de apanhar, Romãs grandes e boas, Abrunhos acres, tâmaras, Arandos, peras raras, E até rainhas-cláudias, P’ra quem quiser provar: Groselhas variegadas, E bérberis em brasa, Figos que a boca aguarda, Limas vindas do Sul, Dulçor p’ra a língua e para o olhar saúde; Venham comprar, comprar.” E assim, tarde após tarde, Entre os juncos das margens do regato, Lizzie inclinava-se p’ra ouvir, Laura encobria o seu rubor: Acocoradas lado a lado, Refrescadas pelo tempo, De braços enlaçados e lábios prevenidos, Com coceira nas faces e nas pontas dos deditos. “Não te afastes,” disse Laura, Erguendo a testa dourada: “Não devemos contemplar estes duendes, Não devemos comprar os seus artigos: Ninguém sabe que solo satisfez Toda a avidez das suas raízes.” “Venham comprar,” gritam os duendes P’lo vale abaixo a manquejar. “Oh” gritou Lizzie, “Laura, Laura, Não espreites esses homens.” Lizzie cobriu então os olhos, Fechou-os bem não fossem el’s olhar; Mas Laura alçou a testa bem lustrosa, E murmurou como rio sem parar: “Admira Lizzie, admira, P’lo vale abaixo arrastam-se homenzinhos. Um del’s carrega um cesto, Um outro arrasta um prato, Um puxa uma travessa Que val’ todo o peso em ouro. Quão bela deve ser a vinha Que gera uvas tão gostosas; Quanto calor terá a brisa Que sopra em tais pomares.” “Não,” disse Lizzie: “Não, não, não; Seus dons não devem encantar-nos Pois são ofertas com peçonha.” Meteu seus dedos nos ouvidos, Fechou os olhos e fugiu: Laura, curiosa, quis ficar Para admirar cada tratante. Um tinha cara de gato, Um sacudia uma cauda, Um caminhava a passo de rato, Um arrastava-se à caracol, Outro rondava, obtuso e peludo, Como se fosse um marsupial, Outro ainda caía à sorte À maneira do ratel. Ela julgou ouvir vozes de pombos Vibrando num arrulho de conjunto: El’s par’ciam gentis, cheios de amor, Sob um clima de júbilo profundo. Seu pescoço fulgente esticou Laura Como um cisne embutido em plenos juncos, Como um lírio que vive no riacho, Como um ramo de álamo ao luar, Ou a largada daquel’ navio Que já ninguém pode amarrar. Pelo val’ musgoso acima Regressavam os duendes em conjunto, Repetindo os pregões bem estridentes, “Venham comprar, comprar”. Tendo chegado ao pé de Laura Ficaram quietos sobre o musgo, Olhar’s marotos repartidos Entre a estroinice dos irmãos; Sinais secretos compartidos Entre a malícia dos irmãos. Um del’s pôs o cesto no solo, Um outro ergueu o seu prato; Outro teceu uma coroa Com folhas, cirros e umas nozes Que não se encontram em nenhum lugar; Com ‘sforço um levantou o peso fulvo De uma travessa com fruta para lhe dar: “Venham comprar, comprar,” era ainda o seu pregão. De olhos arregalados, Laura não buliu, Frustrada pela falta de dinheiro: Um del’s, com cauda louca, incitou-a a provar Num tom de voz tão suave como o mel, O da cara de gato ronronou, O do passo de rato apresentou as boas vindas, O do passo de caracol falou; Outro, de alegre voz de papagaio, Em vez de “Levo-te uma carta” Exclamou “Compra-me esta fruta”, – Qual pássaro, houve um outro que assobiou. Mas à pressa falou a ávida Laura: “Boa gente, não tenho como vos pagar; Se eu me servir é o mesmo que roubar: Não tenho cobre em minha bolsa, Também não tenho prata, Todo o meu ouro está no tojo Que treme em tempo ventoso Sobre a urze ferruginosa.” “Na tua cabeça tens muito ouro,” Foi a resposta deles todos: “Podes pagar co’um caracol dourado.” E um caracol precioso ela cortou, E pérola valiosa ela chorou, Depois chupou o frutedo rubro ou claro: Mais doce que o mel do rochedo, Mais forte que o vinho exaltante, Mais claro do que água corria aquel’ sumo; Nunca antes provara ela nada par’cido, Por mais que o bebesse o fastio era nulo. Chupou e chupou e chupou mais ainda Os frutos que o ignoto pomar produzia; Chupou até a boca ficar dolorida; As cascas sem nada depois deitou fora, No entanto apanhou um caroço co’ amêndoa, E já não sabia se dia era ou noite Ao voltar p’ra casa sozinha. Lizzie foi ter com a irmã ao portão, Sábia com mil reprimendas “Querida, não deves tardar assim tanto, O anoitecer é mau para as donzelas; Peço que não te demores no vale Nos lugares onde param os duendes. Não te lembras da Jeanie, Como ela os encontrou à luz da lua, Tomou suas prendas muitas e de classe, Comeu sua fruta e usou suas flor’s colhidas Naquel’s boudoirs de sombras dos jardins Onde sempre o verão amadurece? Mas desde então à luz que vem do sol Ela foi definhando e definhando; Buscou-os dia e noite, tudo em vão, Mas foi encanecendo e estiolando; Caiu depois com a primeira neve, E até hoje nenhuma erva cresce Onde ela jaz p’ra sempre: Há um ano atrás plantei lá bem-me-queres, Os quais nunca florescem. Não deves regressar tão tardiamente.” “Caluda!,” disse Laura: “Caluda!, minha irmã: Eu comi e comi à discrição, Contudo ainda sinto água na boca; Na noite de amanhã Comprarei mais;” e deu-lhe um beijo: “Não te queixes; Amanhã vou trazer-te ameixas frescas Que ainda vêm presas aos seus ramos, E cerejas que valem toda a pena; Nem consegues imaginar os figos Que os meus dentes puderam penetrar, O monte de melões frios Sobre uma travessa de ouro Grande demais p’ra eu segurar, O aveludado da pele dos pêssegos, A transparência das uvas sem grainha: Bem odorosa será a campina Onde eles crescem, e pura a torrente Que eles bebem com lírios pela beira, E doce como açúcar a sua seiva.” Dourada testa junto a testa igual, Como em seu ninho duas pombas mantendo As asas enlaçadas, Sob um dossel estão deitadas: Como duas flores num só caule, Ou dois cristais recém-nevados, Como dois ceptros de marfim e ponta de ouro Para reis que são medonhos. As estrelas e a lua contemplavam-nas, Com seu cantar os ventos embalavam-nas, Abstinham-se de voar mochos pesados, Nenhum vaivém se ouvia de morcegos À volta da sua paz: Face com face e os peitos bem juntinhos, Abraçam-se uma à outra no seu ninho. De manhã cedo Quando o primeiro galo deu o aviso, Puras como as abelhas, doces, lestas, As duas levantaram-se: Foram buscar o mel, ordenharam as vacas, Arejaram, puseram em ordem a casa, Com o trigo mais branco cozinharam bolos Destinados a bocas requintadas, Depois bateram natas, fizeram manteiga, Deram comida às aves e por fim sentaram-se Costurando e falando com justo recato: Lizzie de alma aberta, Laura absorta em sonhos, Uma contente, a outra em parte doente; Uma chilreando o bem do dia claro, A outra pela noite suspirando. Chegou por fim o entardecer moroso: Munidas com seus jarros deslocaram-se Até junto do arroio bem juncoso; A Lizzie estava plácida no olhar, Mas Laura era uma chama a saltitar. Da profundez tiraram gorgolejos de água; Colheu Lizzie os mais ricos lírios de ouro e roxo, E a olhar p’ra casa disse: “O pôr-do-sol já cora Lá muito ao longe aqueles penhascos grandiosos; Vem, Laura, não há moça que fique p’ra trás, Nenhum teimoso esquilo ‘inda se mexe, Animais e aves dormem como pedras.” Mas entre os juncos Laura ‘inda tardava, Dizia: “A margem é muito empinada. Ainda é cedo, o orvalho não caiu, O vento não gelou;” Tentava em vão ‘scutar o usual pregão, O reiterado jingle todo feito De iscos de açúcar presos às palavras “Venham comprar, comprar”. Por muito que observasse, Não discernia um duende só que fosse, Mancando, correndo, caindo em confusão; Quanto mais a multidão Que por norma rojava pelo vale De feirantes notáveis p’la malícia, Traficando ora a solo ora em equipa. Mas Lizzie insistiu, “Oh! Laura, vem; Ouço o pregão, porém não ouso olhar: Não deves mais tardar junto a este riacho: Vem p’ra casa comigo. Já há ‘strelas no céu, flecte a lua o seu arco, Cintila o pirilampo, Vamos antes de a noite se toldar: Pois, apesar de estarmos no verão, Os nimbos podem sempre cumular-se, Podem fechar as luzes e encharcar-nos; Se nos perdêssemos, o que faríamos?” Laura foi trespassada pelo frio Ao notar que o pregão só p’la irmã era ouvido, Aquel’ pregão dos duendes, “Venham comprar, comprar os nossos frutos.” Não mais pod’rá comprar fruta tão fina? Não mais encontrará o pasto sucoso, Como se fosse surda e também cega? Desde a raiz murchou sua árvore da vida; Calou-se ante a severa dor do coração; Mas, às apalpadelas no escuro cerrado, Arrastou-se p’ra casa, o seu jarro pingando; Rastejou até à cama, e assim se deitou Silenciosa até Lizzie adormecer; Depois sentou-se em ânsia apaixonada, Rangeu frustrada os dentes, e chorou Como se o coração fosse romper. Dia após dia, noite após noite, Laura montou a sua guarda em vão Num silêncio soturno de extrema aflição. Jamais voltou a ouvir aquel’ clamar: “Venham comprar, comprar;” – Jamais voltou a espiar os homens duendes Seus frutos apregoando pelo vale: Mas ao se encher de brilho a meia-noite Ficou o seu cabelo fino e pardo; Ela mirrava, lua cheia e clara Que súbita declina e o seu fogo Consome até à ruína. Certo dia lembrando-se do seu caroço Plantou-o junto a um muro virado a sul; Orvalhou-o com choro, sonhou uma raiz, ‘sperou o crescimento de um rebento, Mas nenhum apareceu; Nunca este viu a luz, Nunca sentiu a seiva correr gota a gota: Enquanto de olhos fundos e apagada boca Ela ideava melões, como um viajante vê No deserto ondas falsas Com árvores monarcas das suas sombras, E na brisa de areia arde ‘inda mais sedento. Deixou, pois, de varrer a casa, De tratar das galinhas ou das vacas, De arranjar mel, de cozinhar bolos de trigo, De trazer água da ribeira: Mas sentou-se delida num cantinho da lareira E sem querer comer. Não suportava a terna Lizzie Ver o cuidado que ulcerava a sua irmã Sem o poder partilhar. De noite ou de manhã ‘Inda ouvia o pregão: “Venham comprar os frutos do nosso pomar, Venham comprar, comprar:” – P’lo vale fora, perto do ribeiro, Ela ouvia o rastejo dos duendes, A voz e o reboliço Que a pobre Laura não podia ouvir; Ansiava comprar fruta p’ra a alentar, Mas temia pagar caro demais. Lembrava-se da Jeanie na sua campa, Que deveria ter sido uma noiva; Mas que ao gozar prazer’s que as noivas sonham Adoeceu e morreu Na primavera da sua vida, No início da estação mais fria, Com a primeira geada luzidia, Com a primeira neve da invernia. Até que Laura, decaindo, Par’cia estar às portas já da Morte: Então Lizzie perdeu o calculismo (O que era, ao fim a ao cabo, melhor ou pior?); E metendo na bolsa uma moeda de prata, Beijou Laura e cruzou, sob luz crepuscular, O maciço tojal, até chegar ao riacho: Aí pela primeira vez na vida Começou a ouvir, começou a olhar. Todos os duendes se riram Quando a toparam a espreitar: Vieram ter com ela a manquejar, A correr, a voar, a saltar, a arquejar, A bater palmas, a rir por entre dentes, A fazer có có ró e glu glu glu, Peritos na careta e no esgar, Cheios de boas maneiras, Mas fazendo caras feias E momices circunspectas, Como ratos ou ratéis, Como gatinhos, – marsupiais, Em passo de apressados caracóis, Assobiando à papagaio, Sem rei nem roque, a trouxe-mouxe, Tagarelando como pegas, Esvoaçando como pombos, Ou deslizando como peixes, – E abraçaram-na e beijaram-na, E apertaram-na em carícias: Estenderam-lhe os seus pratos, Os seus cestos e travessas: “Vem ver as nossas maçãs (Temos golden e reinetas), Abocanha estas cerejas E mordisca os nossos pêssegos, Temos limas, temos tâmaras, Tantas uvas que é só pedir, Temos peras que avermelharam Por passarem o tempo ao sol, Temos ameixas nos seus galhos; Anda lá: arranca, chupa, Os figos e as romãs.” – “Boa gente”, disse Lizzie, Sempre com Jeanie na mente: “Dêem-me muito, muitíssimo:” – E estendeu o seu avental, E pagou a dinheiro o destino. “Ai, não senhora, senta-te connosco, Dá-nos a honra de comer’s connosco,” Disseram el’s de tacha arreganhada: “’stá mesmo a começar esta festança. A noite ‘inda agora é uma criança, Quentinha e aljofarada, Sem sono e estrelada: É que frutos como estes não podem Ser levados por mão de Homem: Metade do seu veludo voaria, Metade do seu rocio secaria, Metade mesmo do seu sabor Passaria despercebido. Senta-te e festeja connosco, Convive, ó bem-vinda, connosco, Desfruta e descansa connosco.” – “Obrigada,” disse Lizzie: “Mas há uma pessoa Sozinha lá em casa esperando por mim. Assim sendo, acabou-se o parlamento: Se não me vão vender fruto nenhum Ainda que eles sejam um milhão, Passem p’ra cá a prata que vos dei Como gratificação.” – Então, el’s desataram a coçar as tolas (Acabara-se a cauda mansa e o ronronar), Puseram-se a discutir, A grunhir e a rosnar. Um chamou-lhe emproada, Intratável, grosseira; Falavam de voz exaltada, Olhavam de maneira malfazeja. Sacudindo com fúria as caudas, Eles pisaram-na e empurraram-na Co’ encontrões e cotoveladas, Arranharam-na com as unhas, Ladrando, miando, pateando, Depois rasgaram-lhe o vestido E macularam-lhe o collant, Arrancaram-lhe algum cabelo, Pisaram os seus pezinhos, Prenderam as suas mãos E espremeram-lhe na boca a fruta Para a obrigar a engolir. A branca e fulva Lizzie manteve-se impávida, Como um lírio cercado p’la enxurrada, – Como a venação garça de uma rocha Com ‘strondo fustigada por marés, – Como um farol deixado à sua sorte Num mar imemorial e barulhento, Arremessando o brilho da sua chama, – Como a árvore coroada de laranjas E branca de botões doces com mel Sitiada em dor p’la vespa e pela abelha, – Como a cidade virgem, principesca, Com profusão dourada de pináculos, Sob o vizinho cerco de uma esquadra Ansiosa por arriar a sua bandeira. Mas pode-se levar o burro à fonte, Não se pode é obrigá-lo a beber. Por isso, embora os duendes lhe batessem, A combatessem, a aliciassem, Fizessem bullying, suplicassem, A arranhassem e com beliscões pintassem Até ela enegrecer, A pontapeassem, a empurrassem, A achincalhassem e espancassem, Lizzie não soltou uma só palavra; Nem deixava um do outro os lábios se afastarem, Não fossem aquel’s duendes mercadores Enfiar-lhe um pedacinho boca adentro: Mas dentro havia apenas o seu riso Ao sentir o gotejar daquel’ xarope Que cobria a sua face, E se alojava nas covinhas do seu queixo, E que riscava o seu pescoço que tremia Tal e qual uma coalhada. Por fim as criaturas malfazejas, Batidas por tão grande relutância, Fizeram-lhe o reembolso, e chutaram os seus pomos Por todos os atalhos nos quais se dissiparam, Sem deixarem raízes, caroços ou renovos; Alguns serpentearam para dentro do chão, Alguns, com ondinhas circulares, Mergulharam no arroio, Alguns deslizaram para o vento Sem fazerem um som, Alguns desapar’ceram na distância. Ardendo em ânsia, Lizzie foi-se embora; Não sabia se era noite ou dia a hora; Trepou a margem, percorreu o tojo, Atravessou bosquetes e gargantas, E ouvia a sua moeda chocalhar Quando saltava no seu bolso, – Nada menos do que música. Fartou-se de correr Como se receasse que algum duende Corresse atrás de si com seus remoques Ou outra coisa pior: Mas não havia duende acossador, Nem ‘stava ela acirrada pelo medo; Era o bom coração que a compelia, Com rapidez de vento, Na direcção de casa. Seu fôlego era pouco para a pressa E p’ra o riso interior. Pelo jardim acima, gritou ”Laura, Sentiste a minha falta? Vem beijar-me. Não te importes co’as minhas pisaduras, Beija-me, abraça-me, suga estes meus sumos Espremidos dos frutos dos duendes para ti, São polpa e são orvalho de duende. Come-me, bebe-me, ama-me; E põe-me bem nos píncaros, ó Laura: Por tua causa eu afrontei o vale E tive de lidar com o seu mal.” Laura sobressaltou-se na cadeira, Agitou os seus braços pelo ar, Agarrou a cabeleira: “Lizzie, Lizzie, tu provaste Por minha causa o fruto proibido? Também a tua luz será ‘scondida, Também tua juventude dissipada, Desgraçada em minha desgraça, Arruinada em minha ruína, Ulcerada, sequiosa, pelos duendes subjugada?” – Agarrou-se à sua irmã, Beijou-a sem parar: Caindo como chuva Após uma aflitiva seca, De novo refrescaram suas lágrimas Os olhos evidentes de magreza; Tremendo de pavor febril, de dor, Beijou-a sem parar com boca ávida. Os lábios começaram a queimar, Para o seu paladar aquel’ sumo era absinto, Ela odiou o festim: Possuída em contorções pôs-se a saltar e a cantar, Rasgou a sua roupa, Torceu as mãos em lamentosa urgência, Pôs-se a bater no peito. Seus caracóis tremiam como a tocha Que leva um corredor em disparada, Ou como a crina de um cavalo em fuga, Como a águia quando avança contra a luz A direito na direcção do sol, Como uma coisa presa libertada, Ou como uma bandeira esvoaçando Quando correm os exércitos. Um fogo rápido alastrou ao coração, Achou aí um outro fogo a bruxulear E subjugou a sua diminuta chama; Amargura sem nome ela comeu até fartar: Ah! sua louca, escolher um tal quinhão De aperto de alma! A consciência falhou na mortal liça: Qual torre de vigia estilhaçada Por um tremor de terra na cidade, Qual mastro por relâmpago atingido, Qual árvore arrancada p’ra raiz Ao vento rodopiando, Qual tromba-d’água alçando a sua espuma Lançada de cabeça sobre o oceano, Ela caiu por fim; Tão livre de prazer como de angústia, É morte ou vida? Vida oriunda da morte. Vigiou-a Lizzie ao longo dessa noite, Contou-lhe o enfraquecer da pulsação, Sentiu-lhe o custo da respiração, Levou água aos seus lábios, refrescou a sua face Com lágrimas e leques que eram folhas: Mas quando nos beirais aves cantaram, E os matinais ceifeiros se arrastaram Para os lugar’s dourados por paveias, E a relva com orvalho se vergou P’ra deixar passar ventos apressados, E botões novos com o novo dia Abriram lírios que eram cálices no arroio, Laura acordou como no fim de um sonho, E riu-se, inocente como dantes, Abraçou Lizzie sem querer parar; Cinzento não havia nos seus caracóis brilhantes, Seu hálito era fresco como Maio, E a luz fazia danças no olhar. Passados muitos dias, meses, anos, As duas já casadas, Já tendo descendência; O medo à espreita em cada alma materna, Suas vidas em união com ternas vidas; Laura chamava os filhos pequeninos P’ra lhes falar da sua juventude, Dias de plenitude há muito idos, Tempo que não regressa: Falava sobre o assombrado vale, Sobre o bizarro mal daquel’s feirantes, Seus frutos como mel p’ra o paladar Mas veneno para o sangue; (Frutos que não se encontram em nenhum lugar). Falava da firmeza da sua irmã Que em perigo de vida lhe trouxera O antídoto benéfico e escaldante: Depois juntava as mãos às mãos pequenas Num convite à unidade, “Não há maior amiga que uma irmã Em tempo de bonança ou tempestade; Para nos animar na adversidade, P’ra nos chamar de novo ao bom caminho, Para nos levantar se vacilarmos, P’ra nos dar força enquanto resistimos.” Christina Rossetti (tradução de Pedro Ludgero) http://www.pedroludgero.com/orfeudecorpointeiro/traducao-do-poema-goblin-market/#more-97 https://wiki.geneseo.edu:8443/display/littexts/Goblin+Market http://cabodaboatormenta.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ridiculo Delasnive Daspet



Ridículo
Delasnieve Daspet

Há muito aprendi,
A preparar com esmero
O meu desterro...
Não preciso de ninguém
Para me afundar.

O que é o ridículo?
A fila andou e eu fiquei;
Não percebi que o som acabara
E dancei sem qualquer melodia.

Atónita, percebi a obviedade...
Pelo que já passei,
Vivo de memórias, de vidas várias...
DD_Campo Grande-MS, 25.02.11


http://www.youtube.com/watch?v=Z_h1HIA4kzA&feature=player_embedded

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

“Faint Not” - Jenny & Tyler




the problem's not a gun, not a color, not a hundred dollar bill
we think the struggle can be won with simple thoughts like 'come together be good willed'
the gap between the rich and poor is spreading out all the more or so they say
we ignore the claims

o my soul, faint not, no
faint not o my soul, keep up, up
in love

it's not that we don't know or we're not shown the proof of poverty
it's not that we don't have the tools to go to break this yoke of slavery
we quit because it's not an easy fix and then forget that they are even there
we forget to care

o my soul, faint not, no
faint not o my soul, keep up, up
in love

where there is hatred, let me sow love
where there is injury, let me pardon
where there is darkness, let the Light come, come

o my soul, faint not, no
faint not o my soul, keep up, up
in love

o my soul, faint not, no
faint not o my soul, keep up, up
in love

faint not
faint not

http://www.youtube.com/watch?v=7G3tQKA2GSI&feature=player_embedded#at=31

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Madrugada 1970





Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
E com letra bonita eu disse ela tinha
Um sorrir luminoso tão quente e gaiato
Como o sol de Novembro brincando
De artista nas acácias floridas
Espalhando diamantes na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia – era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
Sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce – como o maboque...
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
Seus dentes... – marfim...
Mandei-lhe essa carta
E ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
Que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
Pedindo, rogando de joelhos no chão
Pela Senhora do Cabo, pela Santa Efigénia,
Me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Vó Chica, quimbanda de fama
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
Paguei-lhe doces na calçada da Missão,
Ficamos num banco do largo da Estátua,
Afaguei-lhe as mãos...
Falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
Como um monangamba.
Procuraram por mim
"-Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
Levaram-me ao baile do Sô Januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meu caso
às moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba – dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
Pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim
E ela disse que sim
E ela disse que sim.
(Viriato da Cruz - poeta angolano, Porto Amboim 1928, Pequim 1973)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Havia uma pedra no meio do caminho



Foto edson athayde
chapada diamantina 2


No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

Carlos Drummond de Andrade
via
http://www.jornaldepoesia.jor.br/agportal.htm

Havia uma Pedra no meio do Caminho

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

Carlos Drummond de Andrade
via
http://www.jornaldepoesia.jor.br/agportal.htm

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Na Matemática podemos ver poesia

JOGOS DE DESENVOLVIMENTO DA INT. ESPACIAL - Tatian

Um Quociente apaixonou-se
Um dia,
Doidamente,
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa."
E ao falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs:
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar,
Constituir um lar.
Mais do que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Tão chamado amoroso.
Desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu
A Relatividade.
E tudo o que era espúrio passou a ser
Moralidade.
Como aliás, em qualquer
Sociedade.

(Autor desconhacido)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

PESSOA

Um poema brincalhão e engraçado do Fernando Pessoa:


Ai, Margarida,
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Alvaro de Campos

terça-feira, 23 de novembro de 2010

HERBERTO HELDER

O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombrae seu arbusto de sangue.

Com elaencantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequenado sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidadede dois seios, com o peso lúbrico e tristeda boca.
Seus ombros beijarei.
Cantar?
Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimoe o pão for invadido pelas ondas,seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamentode alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mimsobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,a morte sobe pelos dedos,
navega o sangue,desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sobas mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,mulher de pés no branco, transportadorada morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resinae o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a mortee a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música,
um ligeiropescoço de planta, onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estreladespenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noiteimagem pungentecom seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,tua boca penetra a minha voz como a espadase perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a luaestiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempose desfibra - invento para ti a música, a loucurae o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar.
Teus olhostransfiguram-se, tuas mãos descobrema sombra da minha face.
Agarro tua cabeçaáspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou aquilo que se espera para as coisas, para o tempo - eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja.
Para mim se erguemteus olhos de longe.
Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de tique me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissemtua noite e loucura,não há vindima ou água em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitosoriginais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terraa carne transcendente.
E em tiprincipiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espumao sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religiãosobre a vida - e eu nisso demoreimeu frágil instante.
Porémteu silêncio de fogo e leite repõea força maternal, e tudo circula entre teu soproe teu amor.
As coisas nascem de ticomo as luas nascem dos campos fecundos,os instantes começam da tua oferendacomo as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vastaque a pedra e a morte,a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,tinge a aurora pobre,insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobreas casas, a cidade arrebata-se,os bichos erguem seus olhos dementes,arde a madeira - para que tudo cantepelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,eu sei quanto és o íntimo pudore a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,é sua carne que do minuto obscuro e mortose devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebrascom uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peitode sal e de silêncio, concebo para minha serenidadeuma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,onde a beleza que transportas como um peso árduose quebra em glória junto ao meu flancomartirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugadadarei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,taça para beber junto à perturbada intimidadeem que me acolhes. Começa o tempo na insuportável ternuracom que te adivinho, o tempo ondea vária dor envolve o barro e a estrela, ondeo encanto liga a ave ao trevo.
E em sua medidaingénua e cara, o que pressente o coraçãoengasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vidaà nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urnasalina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estioladoem torno das violas, a morte que não beijo,a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renovanum estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidadeinteira, eu estou no fruto como sole desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerradamatriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálicesdas nuvens florescem, a resina tingea estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideiae o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do ventona cevada pura, de ti viriam cheiasminhas mãos sem nada. Se uma vida dormissesem minha espuma,que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matériada minha boca, e serás uma árvoredormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entregatua carne de vinho roçada pelo espírito de Deusserá criar-te para luz dos meus pulsos e instantedo meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua facese encha de um minuto sobrenatural,devo murmurar cada coisa do mundoaté que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o pesojovem da carne aspiram longamentea nossa vida.
As sombras que rodeiamo êxtase, os bichos que levam ao fim do instintoseu bárbaro fulgor, o rosto divinoimpresso no lodo, a casa morta, a montanha inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na bocaum do outro.
Por isso é quenos desfazemos no arco do verão, no pensamentoda brisa, no sorriso, no peixe,no cubo, no linho, no mosto aberto- no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço.
O meu desejo trazo perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nuae branca das mulheres.
Correm em mim o lacree a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar?
Aves bêbedas e puras que voamsobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocentedas urzes, um silêncio, uma palavra;traz da montanha um pássaro de resina, uma luavermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,casa de madeira do planalto,rios imaginados,espadas, danças, superstições, cânticos, coisasmaravilhosas da noite.
Ó meu amor,em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,o povo renasce,o tempo ganha a alma.
Meu desejo devoraa flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espumade crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fomeencanta pela noite equilibrada, imponderável -em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos.
Perde-seentre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puroda tua entrega.
Bichos inclinam-separa dentro do sono, levantam-se rosas respirandocontra o ar.
Tua voz cantao horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias como lento desejo do teu corpo.Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmoeu morrerei contigo.

Herberto Helder



REFLEXÃO: três questões

O que é ser feliz? Como se pode ser feliz? Será a felicidade alcançável?








http://www.youtube.com/watch?v=kyiqGumfGDw&feature=player_embedded



http://braganzas.blogspot.com/2010/11/quem-consola-as-bordas-saficas-de-ana.html