sábado, 20 de abril de 2013
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Antero de Quental
Erguendo os braços para o Céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: - «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,
Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante...
Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: - «Homens! porque é que nos criastes?!»
QUENTAL, Antero de. Sonetos. Lisboa: Sá da Costa, 1962, p.176.
via
http://antoniocicero.blogspot.com/
terça-feira, 6 de setembro de 2011
uma raiva sacode a terra. se a voz
do mar chamasse pelas velas, os estreitos
aguardariam um naufrágio. E se dissesses
o meu nome eu morreria de amor.
...
Devo, por isso, afastar-me de ti ― não
por ter medo de morrer (que é de já não
o ter que tenho medo), mas porque a chuva
que devora as esquinas é a única canção
que se ouve esta noite sobre o teu silêncio.»
(Maria do Rosário Pedreira)
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Tudo de ti me fala
O ar azul e a terra já florindo...
A aurora que nos altos aparece,
Os sapos, no crepúsculo, carpindo,
Aquele velho muro enverdece,
A hera que o sustenta e vai cobrindo,
Tudo de ti me fala. E a tua imagem
Vaga através de mim, que sou paisagem.
Teixeira de Pascoaes
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http://issuu.com/editora_lobodomar/docs/passear_n_3/1
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sábado, 4 de junho de 2011
Duração
O tempo era bom? Não era
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.
Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos,
estou me lendo e relendo.
Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.
Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto,
da raiz mesma do ser.
Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
via
http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200809120208
Duração
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.
Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos,
estou me lendo e relendo.
Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.
Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto,
da raiz mesma do ser.
Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
via
http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200809120208
sexta-feira, 3 de junho de 2011
A Forma Justa
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas
segunda-feira, 28 de março de 2011
O mercado dos duendes
sábado, 26 de março de 2011
quarta-feira, 9 de março de 2011
Ridiculo Delasnive Daspet
Ridículo
Delasnieve Daspet
Há muito aprendi,
A preparar com esmero
O meu desterro...
Não preciso de ninguém
Para me afundar.
O que é o ridículo?
A fila andou e eu fiquei;
Não percebi que o som acabara
E dancei sem qualquer melodia.
Atónita, percebi a obviedade...
Pelo que já passei,
Vivo de memórias, de vidas várias...
DD_Campo Grande-MS, 25.02.11
http://www.youtube.com/watch?v=Z_h1HIA4kzA&feature=player_embedded
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
“Faint Not” - Jenny & Tyler
the problem's not a gun, not a color, not a hundred dollar bill
we think the struggle can be won with simple thoughts like 'come together be good willed'
the gap between the rich and poor is spreading out all the more or so they say
we ignore the claims
o my soul, faint not, no
faint not o my soul, keep up, up
in love
it's not that we don't know or we're not shown the proof of poverty
it's not that we don't have the tools to go to break this yoke of slavery
we quit because it's not an easy fix and then forget that they are even there
we forget to care
o my soul, faint not, no
faint not o my soul, keep up, up
in love
where there is hatred, let me sow love
where there is injury, let me pardon
where there is darkness, let the Light come, come
o my soul, faint not, no
faint not o my soul, keep up, up
in love
o my soul, faint not, no
faint not o my soul, keep up, up
in love
faint not
faint not
http://www.youtube.com/watch?v=7G3tQKA2GSI&feature=player_embedded#at=31
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Madrugada 1970
Namoro
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
E com letra bonita eu disse ela tinha
Um sorrir luminoso tão quente e gaiato
Como o sol de Novembro brincando
De artista nas acácias floridas
Espalhando diamantes na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia – era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
Sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce – como o maboque...
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
Seus dentes... – marfim...
Mandei-lhe essa carta
E ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
Que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
Pedindo, rogando de joelhos no chão
Pela Senhora do Cabo, pela Santa Efigénia,
Me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei à Vó Chica, quimbanda de fama
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
Paguei-lhe doces na calçada da Missão,
Ficamos num banco do largo da Estátua,
Afaguei-lhe as mãos...
Falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbudo, sujo e descalço,
Como um monangamba.
Procuraram por mim
"-Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
Levaram-me ao baile do Sô Januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meu caso
às moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba – dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
Pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim
E ela disse que sim
E ela disse que sim.
(Viriato da Cruz - poeta angolano, Porto Amboim 1928, Pequim 1973)
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Havia uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
Carlos Drummond de Andrade
via
http://www.jornaldepoesia.jor.br/agportal.htm
Havia uma Pedra no meio do Caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
Carlos Drummond de Andrade
via
http://www.jornaldepoesia.jor.br/agportal.htm
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Na Matemática podemos ver poesia
Um Quociente apaixonou-se
Um dia,
Doidamente,
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa."
E ao falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs:
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar,
Constituir um lar.
Mais do que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Tão chamado amoroso.
Desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu
A Relatividade.
E tudo o que era espúrio passou a ser
Moralidade.
Como aliás, em qualquer
Sociedade.
(Autor desconhacido)
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
PESSOA
Ai, Margarida,
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Alvaro de Campos
terça-feira, 23 de novembro de 2010
HERBERTO HELDER
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombrae seu arbusto de sangue.
Com elaencantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequenado sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidadede dois seios, com o peso lúbrico e tristeda boca.
Seus ombros beijarei.
Cantar?
Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimoe o pão for invadido pelas ondas,seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamentode alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mimsobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,a morte sobe pelos dedos,
navega o sangue,desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sobas mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,mulher de pés no branco, transportadorada morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resinae o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a mortee a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música,
um ligeiropescoço de planta, onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estreladespenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noiteimagem pungentecom seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,tua boca penetra a minha voz como a espadase perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a luaestiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempose desfibra - invento para ti a música, a loucurae o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar.
Teus olhostransfiguram-se, tuas mãos descobrema sombra da minha face.
Agarro tua cabeçaáspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou aquilo que se espera para as coisas, para o tempo - eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja.
Para mim se erguemteus olhos de longe.
Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de tique me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissemtua noite e loucura,não há vindima ou água em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitosoriginais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terraa carne transcendente.
E em tiprincipiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espumao sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religiãosobre a vida - e eu nisso demoreimeu frágil instante.
Porémteu silêncio de fogo e leite repõea força maternal, e tudo circula entre teu soproe teu amor.
As coisas nascem de ticomo as luas nascem dos campos fecundos,os instantes começam da tua oferendacomo as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vastaque a pedra e a morte,a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,tinge a aurora pobre,insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobreas casas, a cidade arrebata-se,os bichos erguem seus olhos dementes,arde a madeira - para que tudo cantepelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,eu sei quanto és o íntimo pudore a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,é sua carne que do minuto obscuro e mortose devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebrascom uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peitode sal e de silêncio, concebo para minha serenidadeuma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,onde a beleza que transportas como um peso árduose quebra em glória junto ao meu flancomartirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugadadarei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,taça para beber junto à perturbada intimidadeem que me acolhes. Começa o tempo na insuportável ternuracom que te adivinho, o tempo ondea vária dor envolve o barro e a estrela, ondeo encanto liga a ave ao trevo.
E em sua medidaingénua e cara, o que pressente o coraçãoengasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vidaà nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urnasalina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estioladoem torno das violas, a morte que não beijo,a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renovanum estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidadeinteira, eu estou no fruto como sole desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerradamatriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálicesdas nuvens florescem, a resina tingea estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideiae o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do ventona cevada pura, de ti viriam cheiasminhas mãos sem nada. Se uma vida dormissesem minha espuma,que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matériada minha boca, e serás uma árvoredormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entregatua carne de vinho roçada pelo espírito de Deusserá criar-te para luz dos meus pulsos e instantedo meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua facese encha de um minuto sobrenatural,devo murmurar cada coisa do mundoaté que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o pesojovem da carne aspiram longamentea nossa vida.
As sombras que rodeiamo êxtase, os bichos que levam ao fim do instintoseu bárbaro fulgor, o rosto divinoimpresso no lodo, a casa morta, a montanha inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na bocaum do outro.
Por isso é quenos desfazemos no arco do verão, no pensamentoda brisa, no sorriso, no peixe,no cubo, no linho, no mosto aberto- no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço.
O meu desejo trazo perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nuae branca das mulheres.
Correm em mim o lacree a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar?
Aves bêbedas e puras que voamsobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocentedas urzes, um silêncio, uma palavra;traz da montanha um pássaro de resina, uma luavermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,casa de madeira do planalto,rios imaginados,espadas, danças, superstições, cânticos, coisasmaravilhosas da noite.
Ó meu amor,em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,o povo renasce,o tempo ganha a alma.
Meu desejo devoraa flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espumade crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fomeencanta pela noite equilibrada, imponderável -em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos.
Perde-seentre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puroda tua entrega.
Bichos inclinam-separa dentro do sono, levantam-se rosas respirandocontra o ar.
Tua voz cantao horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias como lento desejo do teu corpo.Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmoeu morrerei contigo.
Herberto Helder
REFLEXÃO: três questões
O que é ser feliz? Como se pode ser feliz? Será a felicidade alcançável?
http://www.youtube.com/watch?v=kyiqGumfGDw&feature=player_embedded
http://braganzas.blogspot.com/2010/11/quem-consola-as-bordas-saficas-de-ana.html